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30 outubro, 2013
preciso do teu código postal
Queria
te escrever uma carta de amor bem apaixonada, sem importar os códigos sociais
nem os julgamentos posteriores de aqueles que achem exagero. Somos feitos de
exageros, oras, transbordando diariamente sentimentos que não podemos conter.
Choramos para lavar a alma e beijamos para aquecer o coração. Somos assim,
humanamente exagerados.
Escrito por
Violeta
ás
18:48
16 julho, 2013
o antônimo de melhor
Te
conheci no dia mais triste da minha vida. Estava voltando do hospital, com
olheiras de dois metros por não dormir há quase 36 horas e um humor de cão.
Minha bolsa pesava uns seis quilos a mais do que deveria e estava cheia de
remédios, para dor de cabeça, para dormir à noite, contra a depressão. No
metrô, entre uma estação e outra, enquanto procurava meus óculos de sol, numa
tentativa de esconder metade da minha cara, esbarrei em você. Nem me importei
em pedir desculpas, naquele dia eu estava longe de ser um exemplo de educação.
Estava cansada da vida e de todo aqueles seres vivos também.
Me
sentia sufocada, inteiramente, completamente, mortalmente. Você não disse nada.
O trem freou sem mais e voltei a te empurrar, esta vez com um agravante,
pisando seu pé com meu salto. Pedi desculpas, num tom frio. Você sorriu.
Continuei a olhar para o final daquele vagão, sem reparar nos seus dentes
brancos, no seu olhar manso. Queria mesmo era explodir o mundo, era chegar em
casa e apagar. Não queria pensar.
Descemos
na mesma estação. Claro, eu não reparei, havia um mar de pessoas, mas você me
viu. Não consegui chegar na escada rolante e parei na metade do caminho, em
meio a esse formigueiro humano e desabei. Cai de joelhos, com os olhos cheios
de lágrimas, larguei minha bolsa e pedi que a terra se abrisse, para me engolir
inteira. Vi espanto nos rostos alheios, um pouco de compaixão. Olhei para
minhas mãos, reparei no esmalte descascado das minhas unhas. Pensei na última
vez que havia tomado um banho demorado, massageando meu couro cabeludo,
sentindo o perfume do meu sabonete favorito.
Você
me puxou pelo braço e me ajudou a sentar no banco. Perguntou se estava me
sentindo mal, se precisava de ajuda. Se queria comer alguma coisa, você pagava.
Eu só conseguia pensar em como tudo aquilo era inútil. Comer, dormir, sentir.
Viver. Como era inútil viver se um dia ia acabar. Comecei a rir, na sua cara
mesmo. Você me olhou estranho, pegou na minha mão.
-Qual
é seu nome?
-Mariana.
-Mariana,
tudo bem se eu te levar numa padaria aqui perto? – você me ajudou a levantar e
caminhamos devagar.
Você
pediu dois expressos e não disse mais nada. Ficou ao meu lado. Eu bebi dois ou
três goles, sentindo amargo na boca, não do café, mas da vida. Pisquei para o
cara ao lado, sem motivo algum. Você pagou com dinheiro e saímos. Atravessei a
avenida correndo, sem sequer olhar os carros e quando estava ensaiando me
atirar da ponte que havia ali perto, você me puxou, com força e ambos caímos no
chão, no cimento frio e sujo, meu rosto molhado de lágrimas e de maquiagem
borrada.
-O
que há de errado com você?
-Minha
mãe morreu hoje de manhã – choraminguei. Senti um pedaço da minha alma indo
embora.
Fez-se
um silêncio.
-Eu
sei bem como é perder alguém – falou calmo – minha irmã faleceu faz quatro
anos. Vai ficar tudo bem.
Vai
ficar tudo bem. Vai ficar tudo em um universo paralelo. No meu mundo, no meu
agora, está tudo errado.
-Essas
coisas passam, de verdade – você tentou novamente – é difícil, mas passa. Você
vai continuar com sua vida e vai ficar tudo bem – sua voz foi minguando até
ficar no limite do audível – você vai conseguir.
Continuei
chorando, me desmanchando. Fechei os olhos. Minhas mãos geladas encontraram as
tuas. Depois apaguei. De cansaço, de dor, de magoa. Era o pior dia da minha
vida e você estava lá.
Escrito por
Violeta
ás
17:23
25 junho, 2013
que seja eterno enquanto dure
Corri
nas pontas dos dedos até ficar bem perto da água, sentir a areia quentinha
entre meus dedos e ouvir o som das ondas explodindo no paredão de pedra. Que cenário único, pensei. Fiquei
observando o mar até cansar de procurar seu horizonte. Era comecinho de
novembro e ainda havia calmaria, nada de crianças correndo ou adultos papeando.
Nada de partidos de futevôlei ou vendedores de picolé. Somente o mar, o sol e
eu. E você. Claro, só você para chegar com seu andar manso e me beijar de leve
no pescoço, bem de leve, só para me ver arrepiada. Só para ver minha cara de
surpresa e meu pulo de alegria e voltar correndo que nem moleque para a casa de
madeira que havia ali perto.
Era
alugada e cheia de moveis velhos, mas quem se importava. Era nossa um fim de
semana inteiro e tinha orgulho de ter juntado a grana para isso. As mochilas
ainda estavam jogadas no meio da sala. Quando consegui te alcançar já estávamos
no corredor e havia me esquecido de limpar os pés. Bendito piso de cerâmica.
Olhei para você. Te conhecia há menos de um mês e já tinha sonhado com você um
trilhão de vezes, em mil esquemas diferentes e havia me lembrado de você ao ler
poemas e ouvir trilhas sonoras e agora morria de vontade de ficar ao seu lado a
tarde inteira, jogando conversa fora.
Puxei-te
pelo braço até a sala e sentamos no sofá meio encardido. Na parede em frente
havia um vazio, onde talvez em outros tempos houvesse um piano ou quadros. Você
pegou na minha mão e fechou os olhos. Pediu para imaginar o mundo daqui a cem
anos, mil anos. Imagina as loucuras do
futuro, Márcia. Tentei ser criativa,
mas só pude lembrar de filmes como Matrix. E sociedades pós-apocalipticas. Mas
você não, sei que não. Você ficou um tempinho assim, calado, admirador nato do
silêncio. Foi abrindo um sorriso devagarzinho e depois virou-se para o meu
lado. Não disse nada, embora ecoasse nos meus ouvidos um te amo. Teu beijo era como um dia de verão.
Você me ensinou
a fazer o melhor sanduiche da historia, com duas fatias de queijo e geleia
caseira de amora. Falou que cresceu sendo neto de doceira e por isso levava
jeito na cozinha. Mais uma vez, fui conquistada por sutilezas.
E houve um
momento, naquela tarde inédita, em que você se aproximou de mim e me abraçou de
surpresa. Fiquei tão boba de te sentir próximo que o prato ensaboado caiu das
minhas mãos. Você sorriu, catando os cacos e zombando da minha falta de jeito. Começou
a contar uma historia engraçada sobre seu irmão e riu sozinho, e aquilo aqueceu
meu coração. Te achei tão família. Tão transparente, tão fácil de ser amado.
Ficamos até de
madrugada falando besteira, misturando papos sobre os anos no colegial com um
vinho comprado no mercadinho da vila. Quando estava na metade do meu monologo
sobre minha aversão ao casamento, começou a chover. Uma chuva pesada onde o céu
parece despencar. Sabe o que sempre tive
vontade?, falei sorrindo. De um beijo
cinematográfico embaixo de um temporal.
Puxou-me sem
mais palavras e logo nos primeiros passos do lado de fora senti meu vestido
encharcar. Corremos até perto do píer e ficamos lá, olhando para a obra prima
da natureza, o mar furioso, escuro e de ondas assustadoras. Você me puxou para
perto e mesmo com o estrondo da chuva, pude ouvir da sua boca o meu nome.
Lembro-me de
você ao meu lado de manhã. Do café da manhã com suco de laranja e pão
fresquinho. Lembro do almoço improvisado. Da tarde jogando xadrez e assistindo
o canal local. De empurrar o carro por mais de quadra e meia para fazê-lo
funcionar. Das músicas chicletes na estrada. De dividir o chocolate do posto de
gasolina. E ficar com vergonha quando estávamos no meio do nada e eu precisei
descer do carro depois de litros de coca-cola.
Todo ano eu
volto à praia. Por uma tarde. Caminho descalça na areia, converso
com o mar e vou embora. Estaciono o carro bem longe da casa onde ficamos. Ainda
dói saber que ela presenciou nosso adeus. Que você fugiu para outros cantos do
planeta e casou-se com uma italiana. E que eu mesma, apaixonada por você,
terminei traindo meus próprios conceitos. Casei-me três anos depois da nossa
viagem. Com um colega de trabalho.
As vezes penso
na loucura que é a vida. Como o tempo é algo relativo. Te amei tão intensamente
que não foi preciso uma vida inteira para isso. Te amei um mês inteiro e isso
bastou para o resto dos meus dias.
Escrito por
Violeta
ás
09:31
16 maio, 2013
aqueles que desconheço
Se não tenho direito de dizer que estou apaixonada como um estado legítimo, me dou o direito de, pelo menos, contar algo que me acontece quase todo dia. Me apaixono por desconhecidos e seus jeitos, seus cabelos, seus sorrisos espontâneos. Fico caçando com o olhar algum sinal que me faça conhecê-los melhor e de improviso invento-lhes nomes ficticios e altamente genéricos, só para poder olhá-los e pensar: é um prazer conhecer você, Paulo.
Procuro focar nos detalhes reveladores, aqueles traços proprios de cada individuo. Se ele tem cara de universitário, postuda de esportista, olhar cansado de estagiário depois de um dia puxado. E reparo nas mãos, nos dedos, se eles estão quietos ou batucando ao ritmo da música que ecoa pelos fones de ouvido.
Crio histórias para aqueles traços tatuados em sua panturilha, para o caderno de capa amarela embaixo do braço. Me pergunto quem é o destinatário de suas mensagens rapidamente digitadas.
Depois, os olhos, janelas da alma. Lá, faço uma busca minuciosa das decepções amorosas, sonhos mal-acabados e um bocado de tragédias cotidianas, atribuivéis à qualquer ser com sentimentos. Tento resgatar poesias esquecidas na minha memória, mas muitas vezes os versos não descrevem o que vejo naqueles olhares.
O caminhar é um caso aparte, não gosto de julgá-los pelo caminhar. Me falaram que passos rápidos mostram um individuo decidido, mesmo que decidido à um simples fato: não se atrasar. Mas eu mesma verifiquei que o caminhar é um aspecto cambial, que muda como se fosse uma estação do ano. Dias ruins se refletem em um caminhar desanimado e dias felizes, naqueles passos de quem se sente longe dos problemas do mundo.
O engraçado é que não os conheço de verdade e justamente por isso nunca poderei saber se minhas observações foram corretas. A magia do desconhecido habita na imaginação, no livre criar. Gosto dessa liberdade, de observá-los, apaixonar-me e logo dizer adeus, com a rapidez de um trem indo embora, de uma porta de elevador se fechando, de um sinal mudando para o verde. Assim perco-os no infinito do mundo para guardá-los no infinito da minha imaginação, assim, perfeitamente incompletos, sombras de pessoas reais.
E com isto me sinto conforme até, quem sabe, me apaixonar não pelo desconhecido, mas sim pelo lado verdadeiro de um alguém.
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