16 maio, 2013

aqueles que desconheço


Se não tenho direito de dizer que estou apaixonada como um estado legítimo, me dou o direito de, pelo menos, contar algo que me acontece quase todo dia. Me apaixono por desconhecidos e seus jeitos, seus cabelos, seus sorrisos espontâneos. Fico caçando com o olhar algum sinal que me faça conhecê-los melhor e de improviso invento-lhes nomes ficticios e altamente genéricos, só para poder olhá-los e pensar: é um prazer conhecer você, Paulo.
Procuro focar nos detalhes reveladores, aqueles traços proprios de cada individuo. Se ele tem cara de universitário, postuda de esportista, olhar cansado de estagiário depois de um dia puxado. E reparo nas mãos, nos dedos, se eles estão quietos ou batucando ao ritmo da música que ecoa pelos fones de ouvido.
Crio histórias para aqueles traços tatuados em sua panturilha, para o caderno de capa amarela embaixo do braço. Me pergunto quem é o destinatário de suas mensagens rapidamente digitadas.
Depois, os olhos, janelas da alma. Lá, faço uma busca minuciosa das decepções amorosas, sonhos mal-acabados e um bocado de tragédias cotidianas, atribuivéis à qualquer ser com sentimentos. Tento resgatar poesias esquecidas na minha memória, mas muitas vezes os versos não descrevem o que vejo naqueles olhares.
O caminhar é um caso aparte, não gosto de julgá-los pelo caminhar. Me falaram que passos rápidos mostram um individuo decidido, mesmo que decidido à um simples fato: não se atrasar. Mas eu mesma verifiquei que o caminhar é um aspecto cambial, que muda como se fosse uma estação do ano. Dias ruins se refletem em um caminhar desanimado e dias felizes, naqueles passos de quem se sente longe dos problemas do mundo.
O engraçado é que não os conheço de verdade e justamente por isso nunca poderei saber se minhas observações foram corretas. A magia do desconhecido habita na imaginação, no livre criar. Gosto dessa liberdade, de observá-los, apaixonar-me e logo dizer adeus, com a rapidez de um trem indo embora, de uma porta de elevador se fechando, de um sinal mudando para o verde. Assim perco-os no infinito do mundo para guardá-los no infinito da minha imaginação, assim, perfeitamente incompletos, sombras de pessoas reais.
E com isto me sinto conforme até, quem sabe, me apaixonar não pelo desconhecido, mas sim pelo lado verdadeiro de um alguém.

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