16 julho, 2013

o antônimo de melhor


Te conheci no dia mais triste da minha vida. Estava voltando do hospital, com olheiras de dois metros por não dormir há quase 36 horas e um humor de cão. Minha bolsa pesava uns seis quilos a mais do que deveria e estava cheia de remédios, para dor de cabeça, para dormir à noite, contra a depressão. No metrô, entre uma estação e outra, enquanto procurava meus óculos de sol, numa tentativa de esconder metade da minha cara, esbarrei em você. Nem me importei em pedir desculpas, naquele dia eu estava longe de ser um exemplo de educação. Estava cansada da vida e de todo aqueles seres vivos também.
            Me sentia sufocada, inteiramente, completamente, mortalmente. Você não disse nada. O trem freou sem mais e voltei a te empurrar, esta vez com um agravante, pisando seu pé com meu salto. Pedi desculpas, num tom frio. Você sorriu. Continuei a olhar para o final daquele vagão, sem reparar nos seus dentes brancos, no seu olhar manso. Queria mesmo era explodir o mundo, era chegar em casa e apagar. Não queria pensar.
            Descemos na mesma estação. Claro, eu não reparei, havia um mar de pessoas, mas você me viu. Não consegui chegar na escada rolante e parei na metade do caminho, em meio a esse formigueiro humano e desabei. Cai de joelhos, com os olhos cheios de lágrimas, larguei minha bolsa e pedi que a terra se abrisse, para me engolir inteira. Vi espanto nos rostos alheios, um pouco de compaixão. Olhei para minhas mãos, reparei no esmalte descascado das minhas unhas. Pensei na última vez que havia tomado um banho demorado, massageando meu couro cabeludo, sentindo o perfume do meu sabonete favorito.
            Você me puxou pelo braço e me ajudou a sentar no banco. Perguntou se estava me sentindo mal, se precisava de ajuda. Se queria comer alguma coisa, você pagava. Eu só conseguia pensar em como tudo aquilo era inútil. Comer, dormir, sentir. Viver. Como era inútil viver se um dia ia acabar. Comecei a rir, na sua cara mesmo. Você me olhou estranho, pegou na minha mão.
            -Qual é seu nome?
            -Mariana.
            -Mariana, tudo bem se eu te levar numa padaria aqui perto? – você me ajudou a levantar e caminhamos devagar.
           
            Você pediu dois expressos e não disse mais nada. Ficou ao meu lado. Eu bebi dois ou três goles, sentindo amargo na boca, não do café, mas da vida. Pisquei para o cara ao lado, sem motivo algum. Você pagou com dinheiro e saímos. Atravessei a avenida correndo, sem sequer olhar os carros e quando estava ensaiando me atirar da ponte que havia ali perto, você me puxou, com força e ambos caímos no chão, no cimento frio e sujo, meu rosto molhado de lágrimas e de maquiagem borrada.
            -O que há de errado com você?
            -Minha mãe morreu hoje de manhã – choraminguei. Senti um pedaço da minha alma indo embora.
            Fez-se um silêncio.
            -Eu sei bem como é perder alguém – falou calmo – minha irmã faleceu faz quatro anos. Vai ficar tudo bem.
            Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo em um universo paralelo. No meu mundo, no meu agora, está tudo errado.
            -Essas coisas passam, de verdade – você tentou novamente – é difícil, mas passa. Você vai continuar com sua vida e vai ficar tudo bem – sua voz foi minguando até ficar no limite do audível – você vai conseguir.
            Continuei chorando, me desmanchando. Fechei os olhos. Minhas mãos geladas encontraram as tuas. Depois apaguei. De cansaço, de dor, de magoa. Era o pior dia da minha vida e você estava lá.

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