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10 outubro, 2013

lençóis brancos

Lençóis brancos para apaziguar o caos inserto em meu coração. Essa é a única explicação que consigo imaginar ao estar embaixo deles. De algodão de origem desconhecido - recolhido por mãos atenciosas em alguma montanha da Ásia - cobre-me por completo. O mais perto que já pude estar de me esconder do mundo.
Sinto o palpitar do meu coração acelerado, corredor de maratona meia-boca pela praia da minha adolescência, e esqueço como se respira como gente e não como cachorro cansado.
"É suficiente" digo e suspiro. Meus pés tremem de frio e sinto que no mundo não há mais nada além de silêncio, ausência e vazio. Ou estou confundindo o mundo com o meu coração?
Quero sorrir e quero sorrir na vida, mas aqui e agora só estou deitada. Deitada e sozinha. Quero pensar no lado bom da vida, mas só consigo pensar no tempo presente. Queria poder sentar e sentir novamente minhas pernas: "lindas pernas" "morenas e graciosas" já me disseram.
Deixo-me estar, sinto-me. Entendo-me. Autoterapia em lençóis brancos, de graça. Choro sem lágrimas porque sinto que aqui e agora não reina a felicidade. Deixo-me estar novamente, mas sem suspiros nem lamentos. Apenas existo, como ser pensante e como ser vivo.
Queria ter os olhos abertos para fechá-los novamente e observar atenta a transição da luz e escuridão, para experimentar novamente essa experiência sensorial tão única como cotidiana e agradecer ao universo por vivê-la.
O frio. Lembro de ler "piececitos de niño/azulosos de frio"* e me lamentar por dentro. Queria estar sentindo a areia morna nos dedinhos e beijar as ondas do mar com o corpo inteiro. Agora estou em lençóis brancos e não quero. Me autoproclamo dona da minha opinião e como primeiro decreto no reino da verdade grito em silêncio: não quero, não quero!
Não há resposta, lógico. Só há silêncio e eu continuo não querendo.
Abro os olhos. Estou sentada na poltrona de couro e só há branco ao meu redor. Branca é a cama ao meu lado, as paredes, as janelas. Alguém está segurando a minha mão e sorrio: estar vivo é um privilegio desvalorizado.

*Piececitos - Gabriela Mistral

16 julho, 2013

o antônimo de melhor


Te conheci no dia mais triste da minha vida. Estava voltando do hospital, com olheiras de dois metros por não dormir há quase 36 horas e um humor de cão. Minha bolsa pesava uns seis quilos a mais do que deveria e estava cheia de remédios, para dor de cabeça, para dormir à noite, contra a depressão. No metrô, entre uma estação e outra, enquanto procurava meus óculos de sol, numa tentativa de esconder metade da minha cara, esbarrei em você. Nem me importei em pedir desculpas, naquele dia eu estava longe de ser um exemplo de educação. Estava cansada da vida e de todo aqueles seres vivos também.
            Me sentia sufocada, inteiramente, completamente, mortalmente. Você não disse nada. O trem freou sem mais e voltei a te empurrar, esta vez com um agravante, pisando seu pé com meu salto. Pedi desculpas, num tom frio. Você sorriu. Continuei a olhar para o final daquele vagão, sem reparar nos seus dentes brancos, no seu olhar manso. Queria mesmo era explodir o mundo, era chegar em casa e apagar. Não queria pensar.
            Descemos na mesma estação. Claro, eu não reparei, havia um mar de pessoas, mas você me viu. Não consegui chegar na escada rolante e parei na metade do caminho, em meio a esse formigueiro humano e desabei. Cai de joelhos, com os olhos cheios de lágrimas, larguei minha bolsa e pedi que a terra se abrisse, para me engolir inteira. Vi espanto nos rostos alheios, um pouco de compaixão. Olhei para minhas mãos, reparei no esmalte descascado das minhas unhas. Pensei na última vez que havia tomado um banho demorado, massageando meu couro cabeludo, sentindo o perfume do meu sabonete favorito.
            Você me puxou pelo braço e me ajudou a sentar no banco. Perguntou se estava me sentindo mal, se precisava de ajuda. Se queria comer alguma coisa, você pagava. Eu só conseguia pensar em como tudo aquilo era inútil. Comer, dormir, sentir. Viver. Como era inútil viver se um dia ia acabar. Comecei a rir, na sua cara mesmo. Você me olhou estranho, pegou na minha mão.
            -Qual é seu nome?
            -Mariana.
            -Mariana, tudo bem se eu te levar numa padaria aqui perto? – você me ajudou a levantar e caminhamos devagar.
           
            Você pediu dois expressos e não disse mais nada. Ficou ao meu lado. Eu bebi dois ou três goles, sentindo amargo na boca, não do café, mas da vida. Pisquei para o cara ao lado, sem motivo algum. Você pagou com dinheiro e saímos. Atravessei a avenida correndo, sem sequer olhar os carros e quando estava ensaiando me atirar da ponte que havia ali perto, você me puxou, com força e ambos caímos no chão, no cimento frio e sujo, meu rosto molhado de lágrimas e de maquiagem borrada.
            -O que há de errado com você?
            -Minha mãe morreu hoje de manhã – choraminguei. Senti um pedaço da minha alma indo embora.
            Fez-se um silêncio.
            -Eu sei bem como é perder alguém – falou calmo – minha irmã faleceu faz quatro anos. Vai ficar tudo bem.
            Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo em um universo paralelo. No meu mundo, no meu agora, está tudo errado.
            -Essas coisas passam, de verdade – você tentou novamente – é difícil, mas passa. Você vai continuar com sua vida e vai ficar tudo bem – sua voz foi minguando até ficar no limite do audível – você vai conseguir.
            Continuei chorando, me desmanchando. Fechei os olhos. Minhas mãos geladas encontraram as tuas. Depois apaguei. De cansaço, de dor, de magoa. Era o pior dia da minha vida e você estava lá.
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